Em outubro de 2025, o Congresso Nacional aprovou a lei que regulamenta o mercado brasileiro de carbono — um passo aguardado há anos por empresas, investidores e ambientalistas. O Brasil, com a maior floresta tropical do mundo, tem potencial para se tornar o maior fornecedor global de créditos de carbono.
Mas enquanto as bolsas de valores celebravam e as consultorias de ESG atualizavam suas projeções, nas aldeias do Xingu e nas comunidades quilombolas do Pará, a recepção foi mais cautelosa.
O modelo em disputa
"Quem vai vender o carbono da nossa floresta?" A pergunta foi feita por Sônia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas, numa audiência no Senado antes da aprovação da lei. A resposta, segundo ela, ainda não está clara o suficiente.
A lei aprovada reconhece o direito de comunidades indígenas e quilombolas a participar dos projetos de carbono em seus territórios. Mas os mecanismos de implementação — quem pode vender, como os recursos são distribuídos, como se evita a grilagem de créditos — ainda dependem de regulamentação complementar.
Os números e o que eles escondem
O mercado voluntário de carbono no Brasil movimentou cerca de US$ 800 milhões em 2025, segundo estimativas da consultoria Ecosystem Marketplace. Com a regulamentação, as projeções para 2030 chegam a US$ 5 bilhões.
Mas pesquisadores da Universidade Federal do Pará documentaram casos em que projetos de carbono em áreas de uso tradicional foram registrados sem consulta prévia às comunidades — uma violação tanto da legislação brasileira quanto das normas internacionais de certificação.